Lenine: íntimo e orgânico

01.08.2014

 

Com cinco prêmios Grammy Latino na mala, Lenine já embarcou pra longe. E entre Pernambuco e Paris acumulou referências. Colocou muitas delas em Chão, expondo-se, sem medos, pela primeira vez em quase três décadas. 

 

Lenine aparece falando em francês ao subir no palco para passar o som como se não houvera abandonado o tempo em que gravou um concerto na Cité de La Musique, em Paris. Mas, para os desatentos, a quadra agora é outra. Uma época de muito mais intimidade, por assim dizer. É momento de Chão, de expor foto de família na capa do disco, de gravar em casa, experimentar dividir os palcos com o filho Bruno Giorgi. De se reinventar, enfim.

O pernambucano está beirando ou 30 anos de carreira e de idade tem 52. Já arrebatou cinco prêmios Grammy Latino e com essa bagagem lança o décimo disco, que recomenda ser ouvido como uma talagada só, ignorando a fragmentação dos álbuns na internet. Ele que não se curva ao que é imposto pela rede, sobretudo quando se trata de downloads gratuitos.

“O problema é que o universo é tão novo e tão amplo que a gente não sabe para onde vai. A ferramenta é tão amorfa e cheia de possibilidades que a gente não sabe como usar ainda. Agora uma constatação eu posso te dar: não me peça de graça a única coisa que eu tenho pra vender.”

Lenine vive de arte, vende cultura, música da melhor qualidade. Faz questão de deixar as regras claras, não faz questão de discos convencionais. Chão tem módicos 28 minutos e músicas conectadas por sons ambientes. São ruídos dos mais variados, todos capturados de forma natural e sem edição. É por tudo isso que o cantor define o trabalho como “íntimo e orgânico”.

 

Intimidade

 

Lenine revela que sempre só foi até a página oito por opção. Depois da página oito eu não abria pra ninguém. Trabalho e vida pessoal sempre estiveram em degraus diferentes até a chegada de Chão.

“Quando eu resolvi fazer o disco e constatei que se chamaria Chão, aquela foto não foi tirada, aquilo é do meu álbum de família. Eu estava realmente dormindo, com meu neto no colo e a minha mulher, portanto a avó dele, chegou de noite, sem nos acordar e clique, com só uma luz em infravermelho. Então eu achei honesto com o projeto todo, com essa intimidade toda, com essa organicidade eletrônica, que é quase paradoxal, porque o disco é extremamente eletrônico, mas extremamente orgânico também. Foi por isso tudo que eu me expus dessa maneira. Mas eu tenho a sensação de que o Chão é o disco e o trabalho em que eu estou mais nu.”

 

 

“Eu sou um homem de sorte porque fui criado por duas pessoas extremamente visionárias  e generosas. Dona Deise e Seu Geraldo. Me deram prumo, uma capacidade de julgamento e me deram mais do que tudo, exemplo de generosidade."

 

Ruídos

 

O primeiro som a vazar foi o do canário belga da avó de Bruno, seu filho, que vive em uma casa na Urca, onde há um estúdio de gravação. A gravação em que Frederico aparece é a faixa “Amor é pra quem ama”. “É também um disco mais romântico, porque o amor está permeando toda a minha vida. E chão sendo o que me sustenta, o que me mantém é o amor. Por mais piegas que isso possa parecer, não há caminho a trilhar sem amor.”   

As descobertas entretiveram o artista, como se pode ver a seguir. “Foi muito divertido gravar a chaleira, procurar o tom da chaleira, abrindo e fechando o gás. Foi muito divertido dar passos em volta do meu orquidário e construir depois a música por cima dos passos e não o inverso. Foi muito divertido gravar o coração do meu filho. E a gente teve de colocar uma flanela. Teve todo esse processo que é muito íntimo, mas que eu acho que está evidente no disco todo, pelo silêncio e pela pausa que permeiam o processo todo.”

 

 

Tudo teve início quando Lenine, sentindo-se numa posição muito cômoda, começou a suspeitar de tudo. “Eu sempre sou levado a ir mais alem. Eu acho que é de índole, de curiosidade, porque cada vez que eu estou numa posição muito cômoda, eu começo a desconfiar de tudo.” Essa desconfiança o fez pensar em um trabalho diferente dos demais. Não teria bateria ou percussão, o que lhe permitiu descobrir tantos novos relevos sonoros.

Na hora de transpor para o palco, rapidamente descobriu que teria de adaptar ao surround -o tipo de equipamento encontrado no cinema, em que os sons vem de todas as direções. Então, Chão ganhou essa tridimensionalidade. “Está sendo uma experiência maravilhosa não só pra mim, mas pra toda a equipe”, conclui. 

 

Texto: Cristiano Felix

Fotos: Ramón Vasconcelos

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