Senhora Insana

26.07.2014

 

Grace Gianoukas pega no pesado. No comando da Terça Insana ela escreve, dirige e atua, além de escolher seus parceiros, como fazem outras mulheres modernas. Louca por Maria Callas, só não a peça para ser breve; o prazer tem de ser prolongado. Escrever tirinha em jornal, isso ela deixa pro outros: é coisa de macho.

 

Cercada de homens, na banca de um salão de humor que homenageava os cartunistas Angeli e Laerte Coutinho, Grace Gianoukas percebeu uma de suas fragilidades: não pode fazer graça em quadrinhos de jornais. Simplesmente por não ter poder de síntese, como de resto a maioria das mulheres, admite. O único exemplar feminino que ela conheceu naquele mesmo júri foi Pryscila Vieira, uma autora nascida em Curitiba e criadora de Amely, uma boneca inflável falante. “Fazer tirinha é pá, pá, pá. E a gente não consegue abreviar o discurso dessa forma em nenhuma situação”, explica, sem sentir, usando onomatopeia.

Transformar o som em texto, uma das grandes características dos quadrinhos, Grace consegue fazer de outra forma. Os que escreve para suas personagens, especialmente para a mais célebre delas, Aline Durel, uma viciada em Lexotan, são destaque pelas digressões que alongam a história, com muito humor no meio – e nos desfechos e retomadas. São críticas com acidez e a habilidade de revelar muito do que está fora dos palcos: uma mulher verborrágica, que encontra na autoria de pequenas esquetes uma maneira de se manter viva, como já bem fazia uma das maiores peritas no universo feminino: Clarisse Lispector.

“Sou intuitiva e visceral. Eu não estudei marketing. Crio porque preciso botar pra fora o que concentro nas minhas observações”, diz. Mas essa característica é contrabalançada com outra muito masculina e que se assemelha a de um operário, um trabalhador braçal. Prova disso é que, quando criou a Terça Insava, doze anos atrás, Grace, depois de se apresentar na primeira casa que abrigou o projeto, o Next, no Centro de São Paulo, fechava as portas, recolhia as mesas e levava os garçons pra casa, pois não havia metrô na madrugada.

“Nos primeiros anos as consequências da Terça Insana era praticamente ignoradas por absoluta falta de tempo. Não dava pra ficar colhendo louros. Se um tinha sido sucesso ou outro precisava ser ainda melhor ou no mínimo ter o mesmo nível. Só vim ter noção do que estava acontecendo quando soube que o nosso DVD estava sendo pirateado com legendas em outros idiomas, pra que os amigos do brasileiros que viviam foram do país pudessem entender do que eles riam tanto.”

Pouco antes, porém, tinha sido dado outro sinal. Grace trabalhava paralelamente em um projeto de formação de público de teatro na secretaria de cultura e chagava para mais um espetáculo no meio da noite. Foi quando numa daquelas terças-feiras viu uma aglomeração, que julgou ser para entrar em uma boate gay, a Danger Dance Club. “Eu já tinha pedido mais de vinte vezes pra o pessoal de lá colocar a fila na Avenida Consolação, pra não confundir nossos públicos. Só quando entrei e me disseram que todos os ingressos tinham sido vendidos é que entendi que a fila era nossa.”

 

 

Revolução da comédia

 

A Terça Insana, ela entende, acabou suprindo uma necessidade que estava no ar. Tanto que foi descoberta pelo público, antes da mídia. O projeto é de reinvenção e foi criado para pesquisar linguagens de comédia, das mais antigas até as contemporâneas, sem aceitar piada velha e exploração do primeiro tipo de humor, que humilha o outro em troca de gargalhadas.

Houve, ao longo de mais de uma década, várias transformações. Na primeira camada as esquetes era inéditas a cada semana, com temas do cotidiano. Depois surgiu a fase temática, com uma decupagem que abordava vários aspectos. Os textos passaram a ser escritos pelos próprios atores, que tinham o tempo de experimentação de um mês até ver o que funcionava e trabalhar desdobramentos. Vieram as turnês. O elenco era fixo e chegou a ter 27 pessoas. Na nova leva os atores são convidados.

“Abrimos uma picada na mata, que tinha voltado a ser selvagem. Eu não copiei ninguém e acho que foi uma coisa natural. Nos anos 1980, quando cheguei em São Paulo, eu me apresentava em todas as bibocas, em Madame Satã, em casas de punk e de rock. Fiz espetáculos em teatros, mas era época das performances, do happening. Claro que me fudi muitas vezes, mas acabei criando uma linguagem minha. A comédia que estava por aí não acompanhava nossos avanços enquanto sociedade e nossas idiossincrasias.”

A linguagem própria, observa, nasce da necessidade do artista de traduzir o que é contemporâneo. “Todo artista é um ser inadequado, um esquisitinho que não se encaixa bem em nenhum lugar da sociedade, no modus vivendi. Então a gente escolhe nosso cantinho de segurança. Somos legáveis e precisamos viver com os outros, mas a gente observa isso do nosso espaço. É dele que a gente olha e conta o mundo. Da janelinha da inadequação é que nasce o estilo de um artista.”

 

 

O projeto fez escola e serviu de base de estudo para muitos humoristas. Como toda onda, foi aproveitado pela indústria do entretenimento, sempre ávida por dinheiro, que pavimentou e instalou fast foods naquela trilha aberta na mata. Chegou a onda dos stand-ups, com figuras reveladas pela Terça Insana, que pouco debatiam e conheciam a cultura do país antes daquela investida. “O Marco Luke quando chegou, por exemplo, não sabia nem quem era a Wanderléa”, lembra.

Como o jogo é de ping-pong, Grace Gianoukas convidou gente já experimentada, a exemplo de Octávio Mendes Barbetta e Luís Miranda. Novos e talentos reconhecidos trocam figurinhas e é com oxigenação e as ampliações que todos os grupos formados garantiram respeitabilidade e holofotes. É assim até hoje.

“Quando a gente vai pro Rio de Janeiro com um novo show todos os diretores de novela vão assistir a caçar talentos. Sou muito grata porque tive a oportunidade de conhecer gente com vocação nata e ajudar a lapidar, sempre respeitando as diferenças. Qual a graça de zoar da sexualidade de alguém? Prova disso é que a Betina Botox, personagem gay, é engraçada e fala sobre cidadania. Se assume, mas com dignidade.”

 

"O humor que a gente tem na televisão é o que humilha o outro. Disso eu não gosto. A Terça Insana não aceita bullying.”

 

Apesar da crítica, Grace já cedeu aos encantos da televisão e até hoje faz participação nos humorísticos da Rede Globo. Sua primeira aparição nas telas foi no infantil Castelo Rá-Tim-Bum, dirigido por Fernando Meirelles na TV Cultura e ganhador de diversos prêmios internacionais. Mas ela já participou da Escolinha do Professor Raimundo e foi vista pela última vez na novela Guerra dos Sexos.

No folhetim dirigido por Jorge Fernando, Grace era Lidmila Petrovka, uma professora de balé que ensinava Nando, personagem de Reynaldo Gianecchini, a ser leve. Ela o preparava para estrear nas passarelas da moda, defendendo a coleção da marca Positano. “Fiquei muito feliz com essa participação e por ter encontrado o Jorge. Ele me sacou.  Cada vez que vou fazer televisão eu tenho de reaprender. O teatro me deixa tão ampla e tão solta que esqueço que tenho de ficar na câmera. Trabalho com o agora e meu movimento vem com meu estado de espírito”, argumenta.

A liberdade nos palcos, a propósito, em breve vai dar espaço a outro tipo de experiência. Além de ter três pilotos programados para televisão, a atriz está preparando um estrear um espetáculo solo no teatro, cheio de marcações.

São projetos para o próximo ano. Até lá ela se dedica exclusivamente ao que já está em andamento e observa outro passos, de gente nas ruas, nos protestos que tomam conta do Brasil. Aos 49 anos, acompanha o filho de 22 que vai às ruas, atendendo ao chamado da sociedade por mais direitos e menos corrupção.

“Já fiz parte de uma história de mudança política, fui pra rua pelas Diretas. Sou de 1963 e cresci quando se cantava ‘Esse é um pais que vai pra frente, laralala’. Vi outras fases muito bacanas, como o aos 1980, apesar de muitos torcerem o nariz. Naquela época existia um ar de rebeldia e as pessoas de grupos diferentes se encontravam nos mesmos espaços e até compravam tretas, mas era olho no olho. Sinto falta disso, mas os novos protestos me ajudaram a renovar a esperança. É emocionante ver que a luta de uma minoria pelo passe livre no transporte público, que surgiu nos anos 1990, ganhar outros gritos de indignação e, com a internet, a gente ter evoluções como não precisar fazer mais panfleto chamando para uma manifestação. Está todo mundo conectado. Vivemos um tempo muito interessante e hoje tem até um político que eu admiro, que é o deputado Jean Wyllys. Gosto de gente de verdade, acho que é isso.”

 

Texto: Cristiano Felix

Fotos: Ramón Vasconcelos

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