Marina de La Riva

24.07.2014

 

 

Gestos contidos se entrelaçam com movimentos firmes e múltiplos trejeitos na face. São todos os referenciais de Marina de La Riva que se colocam em cada conversa e nos palcos. Em cada apresentação em que acessa emoções e volta da cena renovada, ouvindo ecos de coerência artística.

 

Mariana é ora rigidez, ora langor, vê-se pelos gestos. Talvez essa dicotomia surja da mescla entre Brasil e Cuba. Suas raízes podem ser encontradas nos dois lugares porque eles a memória alcança. Quiçá também seja essa combinação que lhe guarde frescor em conversas num meio de tarde e dramaticidade em cena.

Há muitas sutilezas em Marina, nada é tão evidente como a alma de pátrias e culturas divididas. Por trás de uma mulher de postura clássica, beirando a sisudez, ainda que não exista nenhum traço de soberba, se esconde uma pintura colorida, cheia de luzes. E sombras, por suposto. “Ninguém é monocromático”, dispara.

Marina de La Riva reconhece ser emocional por ter uma natureza artística, mas também faz questão de se mostrar razão. Ou apresentar, melhor. É nos show que exercita esse lado com mais vigor. É quando se faz intérprete, “com capacidade de acessar e voltar˜’, como bem define ao negar que cante melhor quando está triste.

“Eu sou uma profissional que tem um processo mental. Mergulho e volto, senão ficaria louca. Quando estou trabalhando, me entrego, faço a cena, me emociono e emprego minha técnica. Não fosse assim a gente se mataria”, diz, gesticulando como fora cortar os pulsos, dando amostras de sua verve dramática.

Seja cor ou música, os tons mais fortes, evidentemente, se sobressaem. E é assim que também aparecem detalhes por trás do visual sóbrio e da fala pausada. São pausas que buscam as palavras ideais e revelam pensamentos diversos, muitos idiossincráticos. Mas nada é desconexo. Tudo parece ter referências psicanalíticas e caribenhas, especialmente cubanas.

À Cuba Marina diz ter voltado sem ao menos ter ido uma primeira vez. “Pode parecer maluco, mas não é”, destaca. Filha de uma família exilada, Marina passou a adolescência em Baixa Grande da Leopoldina, distrito de Campos dos Goytacazes, cidade do interior fluminense. Conta ter a história da família como uma placenta. Por esse anexo embrionário foi transferido o alimento intelectual e emocional. Ouvir a mesmo trajetória repetidas vezes, assim como as canções cubanas, funcionava como forma de estancar a dor. “Eles queriam virar a página, mas crianças absorve tudo”, registra, lembrando o pai, Fernando, e os avós.

Os três fugiram para Miami quando da Revolução Cubana, no final dos anos 1950. Depois chegaram ao Rio de Janeiro, onde a família havia adquirido terras ainda morando em Cuba. “Eu sabia quando meu avô chegava em casa. Sentia o cheiro do charuto e dizia: ‘meu avô chegou, vou lá na sala conversar com ele’. Eu conheci Cuba no momento certo. Minha família sofreu muito com a revolução e talvez eu não tivesse cabeça pra voltar, já que fui criada do outro lado. Materializar a fantasia tem dois lados muito violentos. E eu fiquei com o positivo. Ou ela desmonta toda e vira éter, ou ela se refaz em realidade e diz ‘essas são suas raízes mesmo’. Eu me sentia na minha terra.”

Marina respondia em português enquanto o avó falava em espanhol. Cresceu com essa comunicação bilíngue e criou rapidamente identificação com as canções que hoje defende. “Eu fico emocionada porque tenho uma ligação afetiva com esse repertório. E essa é a obrigação do artista: ser verdadeiro. Porque, assim, outras pessoas vão sintonizar”.

 

 

 

“Materializar a fantasia tem dois lados muito violentos. Ou ela desmonta toda e vira éter, ou se refaz em realidade e diz ‘essas são suas raízes mesmo’. Eu me sentia na minha terra (em Cuba).”

 

Idílio: um grande amor não realizado

 

Tirando a poesia, “Idílio” representa um grande amor que Marina ainda não realizou. É ainda, afora um ao vivo, o nome do seu segundo álbum de carreira, que antes de ser lançado foi chamado de “Ausência”, por então ser a faixa do disco, de composição de Vinícius de Moraes e Marília Medalha, sua preferida.

A troca definitiva de um por outro se deu novamente por sobre a análise das cores. A capa do álbum seria negra, como a primeira, e sem foto de Marina. Assim ela queria, até sonhar com uma apresentação branca. Com a cor que simboliza a união de todas, mas também é conhecida como a ausência de cor, em cores pigmento.

“Ao longo do tempo comecei a perceber que “ausência” definia, sim, mas somente parte do disco. Era a parte mais escura. Não definia o todo, não era justo com a obra. A obra tem uma extensão, tanto que isso é contado na sequencia das músicas. Começa com um encontro e termina com um lamento.”

Início, meio e fim. A sequencia obedece a lógica de Marina, a artista que busca conexão com muitos mais e se recusa a aceitar que a forma de consumir música tenha mudado por completo. “Nessa época, que dizem que o disco não tem mais função, eu digo que não. Tudo bem que o mundo mudou, a forma de ouvir música mudou, mas o ser humano, em essência, não mudou. O que sofreu transformação foi a forma, o imediatismo. O disco é feito para quem quer o disco, com suas fotos, letras e poesias.”

 

 

 

A canção que embalou toda essa história continua sendo muito respeitada, mas foi “Voy a tatuarme” a escolhida para a gravação do primeiro clipe da cantora. “Trabalhar independente é dureza”, diz, antes de contar o esmero da produção, a escolha da canção e o investimento feito.

“Fizemos na argentina, com dois diretores maravilhosos, e eu adoro essa música. Ela é de um compositor cubano maravilhoso que se chama Amaury Gutiérrez, que ganhou no ano passado um Grammy Latino de melhor cantor. Na argentina, a gente gravou num salão de tango interessante, porque era uma área abandonada e vários artistas foram se apropriando e levando obras pra lá, e hoje é um local super ‘buxixado’. Tem restaurante, bar, aulas de tango e aquela ‘vibe’. ‘Voy a tatuarme’ tem essa coisa de uma paixão muito forte. Imagina você o que é tatuar o nome de alguém?”, indaga com espanto.

O próximo trabalho já começou a ser desenhado e colorido, já que o tempo de Marina de La Riva não atende as urgências do mercado fonográfico. Passaram-se mais de cinco anos do primeiro álbum com participações ilustres de David Moraes e Chico Buarque, em 2007, até o segundo projeto, lançado no início desse ano. Como observa a fotógrafa Drika Silveira, Marina é um caldeirão de referências aquecido em fogo lento. Produz, ouve, se emociona, afasta, torna a escutar. Viaja, tenta esquecer, ouve mais uma vez, oferece aos mais chegados para ter deles opinião. Isso tudo ela faz para garantir o distanciamento entre pessoal e profissional, antes de lançar o álbum. É um processo custoso, realmente. “Não quer dizer que eu não sei flambar”, adverte.

“Pra mim a música é muito especial e tem esses dois lados. Ela só acontece no cérebro da gente, ela não é tangível. Vai saber como você ouve a música que eu ouço? Eu tenho uma necessidade de dar vazão a esse grande amor, com esse respeito que tenho pela minha vocação, e ao mesmo tempo ser super pé no chão. (...) Eu tenho um látego muito duro e uso comigo mesma. Eu sou minha pior carrasca. Não tenho medo de falar que vou jogar fora quatro músicas porque sei que tem investimento, tem o tempo, o tempo de lançar o disco, mas se eu não estiver feliz, não adianta. Ao mesmo tempo, eu vivo de música. Então, tem essa dicotomia entre a realidade e o próximo da perfeição que eu posso dar naquele momento.”

 

“Eu tenho um látego muito duro e uso comigo mesma. Eu sou minha pior carrasca. Não tenho medo de falar que vou jogar fora quatro músicas.”

 

O terceiro disco já começou a ser pensado. Marina e Júnior Barreto se encontraram e começaram a fazer música. Muitas ideias estão anotadas em um caderninho que fica sobre o criado mudo, já que a inspiração não ter hora marcada para acontecer. “Sabe o que é? O tempo da arte é outro. É o tempo interno, o tempo da fruta. Ninguém fala pra fruta: ‘fica pronta, rápido, o carro tá saindo’. É o tempo interno: a potencialidade, com o movimento, com o tempo. Aí gera o momento.”

Numa alusão ao disco de estreia, perguntamos: e a mariposa, onde fica? “É ela que me dá leveza! Sou um pouco ‘mariposita’. Meu pai falava comigo quando eu era pequenininha que eu parecia uma mariposinha. Brincava aqui, soltava ali, já fazia outra coisa. Eu sempre fui muito curiosa. Então ela é a menina alegre que eu deixo viver. Sem ela eu morro.”

 

 

Texto: Drika Silveira e Cristiano Felix

Fotos: Drika Silveira

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