Salve Dom Ariano

23.07.2014

 

 

 

Um sopro de vida e a memória de um dos maiores nomes da nossa cultura pode se apagar. Mas seu legado é imortal, fonte de ensinamentos que valem ser revisitados, como no privilégio de um momento de entrevista, há três anos, que tive ao lado de Geórgia Hackradt.

 

 

 

Ariano Suassuna não faz a menor festa ao receber um jornalista. Nem entrevista gosta de dar, mas qualquer dedo de prosa com ele é um presente. Ranzinza e categoricamente contra as culturas de massa, não tem medo de ser considerado um dinossauro. Até já foi chamado de “Dom Quixote arcaico” por viver, como ele mesmo diz, “esgrimido contra os moinhos de vento.” Viver assim pode parecer inglorioso, mas não foi o que nossa repórter percebeu. Nesse relato, Dom Ariano chega a ter doçura na rouquidão.

 

Um engenhoso fidalgo que, de tão envolvido em suas leituras, acabou por soltar um ou dois parafusos do juízo. Por isso mesmo vive absorto em seu mundo de fantasias, onde as coisas da vida são bem mais intensas, ora assustadoras, ora divertidas. Um pensador que vive no mundo das idéias, apesar da realidade, quase sempre dura e triste, insistir em quebrar os encantos. Assim é Dom Quixote de La Mancha, mas ao escritor nordestino Ariano Suassuna couberam as mesmas medidas.

Escritor, advogado, poeta, ilustrador, dramaturgo, observador do tempo e da vida alheia. Ariano é a triste figura comicamente ranzinza. Um mau humor bem humorado. Vestindo terno de linho branco e calças de algodão, se diverte contando causos antigos e diverte os outros com suas tiradas certeiras. Ariano e Dom Quixote, cada qual com os moinhos imaginários que os couber.

Diferente do Quixote, Dom Ariano dispensou o Sancho Pança e abraçou uma luta solitária. Por ela segue todas as manhãs, escrevendo, ilustrando, produzindo. Tudo feito à mão, papel grosso e caneta bico de pena, da forma como aprendeu. Um ritual seguido diariamente, das 8h às 13h. À tarde, Ariano costuma receber visitas na sala de sua casa. São estudantes, pesquisadores e curiosos que buscam aprender um pouco mais sobre história e cultura pela voz de quem possui esclarecimento para dividi-las como poucos.

A idade o trouxe mãos trêmulas amparadas por um corpo franzino, frágil. Já não pode mais ser o andarilho de antes, mas o tempo não o foi tão injusto. “A velhice tem muitas desvantagens, mas tem algumas vantagens também.  Não ligo mais para críticas, até acho graça das que são bem feitas. Passei muito tempo escrevendo o que me pediam. Agora, aos 84 anos, me rebelei e só escrevo o que quero”, impõe, satisfeito. Diz ter medo de defunto, preferir o titulo de imorrível ao de imortal da Academia Brasileira de Letras e explica: “Eu sou tão velho que Nelson Pereira dos Santos para mim é novo”, brincando a respeito do cineasta de 83 anos.

 

 

 

"Eu odeio viajar, tenho horror. De avião só conheço dois tipos de viagem, as tediosas e as fatais. Quando viajo, rezo para ficar entediado.”

 

Em suas viagens, Ariano é acompanhado por seu genro, o artista plástico Alexandre Nóbrega. Durante cinco anos, Alexandre vem registrando inusitadas situações e costumes do sogro. O mais comum de seus hábitos é o de deitar-se onde quer que seja. Pode ser qualquer lugar, como o chão do aeroporto de Guarulhos ou o acostamento da estrada após uma pane no carro.  “Onde eu chego, deito. Todo mundo fica preocupado, constrangido. Eu tenho que explicar que não estou doente, só estou descansando”, diz Ariano.  As fotografias estão hoje compiladas em um livro, O Decifrador, lançado pela editora Do Autor.          Viajar, aliás, nunca o agradou. “Eu odeio viajar, tenho horror. De avião só conheço dois tipos de viagem, as tediosas e as fatais. Quando viajo, rezo para ficar entediado”, diz Ariano, que, a muito contragosto, cruza o país cerca de uma vez por semana. Por consequência, também não gosta de entrevistas, já que para concedê-las quase sempre é preciso viajar.

Ariano atualmente se vê determinado a concluir seu maior projeto. Um romance que tem o título provisório de “O Jumento Sedutor.” Ele já mudou de nome várias vezes ao largo dos 20 anos em que vem sendo construído.  Agora está prestes a ser lançado pela editora José Olympio. O texto foi concluído. O desafio é finalizar as mais de 800 ilustrações feitas pelo próprio escritor e sua caneta bico de pena. A nós, resta esperar.

 

 

 

Registro de “O Decifrador”, feitas por Alexandre Nóbrega, genro de Ariano. O título homenageia o personagem narrador de “A pedra do reino”, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, que sonha em fundar um império literário no Brasil como forma de redenção do povo sertanejo.

 

 

Texto: Geórgia Hackradt

Edição: Cristiano Felix

Fotos: Ramón Vasconcelos

 

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